Canções Perfeitas
Uma lista restrita
Pode-se argumentar que canções perfeitas não existem. Mas, seguindo meu critério (estritamente pessoal), existem sim. São aquelas canções que a gente não esquece, aquelas que dão significado para alguns momentos em nossas vidas, aquelas que conseguem traduzir sentimentos indizíveis, aquelas que, através de sua arte, nos confortam e nos asseguram que não estamos sós neste mundo. Mas o critério principal é que elas provoquem arrepios, que causem um frisson, ou, se preferirem, aquelas canções que dão um bagulho estranho na alma.
E, para mim, o rei das canções que dão bagulho é o Chico Buarque. Escolher a canção perfeita dele é uma tarefa inglória. Tem algumas, como Retrato em Branco e Preto, Pedaço de Mim, Meu Amor. Para escolher só uma, fico com esta:
Eu te Amo / Chico Buarque e Tom Jobim (1980): A letra inteira é perfeita. Em sete estrofes, Chico mostra a dor do fim de um relacionamento, desde a lembrança do início apaixonante, desmedido, ao final doloroso e desnorteante; o amor em sua totalidade, de alguém que se doou por completo (te dei meus olhos pra tomares conta) e já não é mais dono de si (me conta agora como hei de partir). Um misto do cotidiano da vida doméstica (meu paletó enlaça teu vestido e o meu sapato inda pisa no teu), com a paixão carnal dos olhos, pernas, seios e sangue.
Este verso em particular fica no meu replay mental:
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Mas o topo da cereja da genialidade foi ter feito a canção para ser cantada em dueto. O homem canta a primeira parte. A mulher canta a segunda. Os mesmos lamentos, a mesma dor, apenas com a troca dos pronomes possessivos. Ninguém é inocente quando um relacionamento acaba.
A versão original é com Chico e Paula Costa, mas a versão abaixo, com Chico e Paula Morelembaum cantando, Tom no piano, Jacques Morelembaum no violoncelo, e Danilo Caymmi e Paulo Jobim nas flautas, é minha preferida.
Ouvir isso em 2025 me enche de nostalgia. Saudades de um Brasil que poderia ser e que nunca será.
Ou será que será?
In My Life / The Beatles (1965): John Lennon tinha 25 anos quando escreveu esta canção. Existe uma certa controvérsia se Paul McCartney (na época, com 23 anos) teria realmente contribuído com a letra. De qualquer modo, é incompreensível como eles, assim tão jovens, pudessem ter maturidade para escrever uma canção que traduz as idas e vindas da vida tão fielmente. Mais crível seria falar que ela foi escrita por uma pessoa madura, fazendo uma retrospectiva de sua vida.
There are places I'll remember
All my life, though some have changed.
Some forever, not for better;
Some have gone and some remain.
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall.
Some are dead and some are living,
In my life I've loved them all.
But of all these friends and lovers
There is no one compares with you.
And these mem'ries lose their meaning
When I think of love as something new.
Tho' I know I'll never lose affection
For people and things that went before,
I know I'll often stop and think about them,
In my life I love you more.
Tho' I know I'll never lose affection
For people and things that went before,
I know I'll often stop and think about them,
In my life I love you more.
In my life I love you more.
Infelizmente, não existe um vídeo deles cantando esta canção, apenas a gravação em estúdio do disco “Rubber Soul”. Deixo aqui um cover feito pela Madison Cunningham com backing vocal do Mike Viola (autor da canção That Thing You Do). Atenção à harmonia que eles fazem.
Essas são minhas canções perfeitas, aquelas que dão um bagulho.
Você tem alguma?
P.S. : Procurando um vídeo do Chico e Tom juntos, achei esta pérola deles cantando “Falando de Amor”. Tom a descreve como “aquela música brasileira que chora e ri, que ri e que chora”. Gênio.
E lembrei de uma entrevista hilária do Chico, que não acho agora, falando que o Tom havia inicialmente implicado com a letra de “Retrato em Branco e Preto”. Segundo Chico, Tom implicara justamente com a ordem de “branco e preto”. O normal é “preto e branco, né?”, teria dito Tom. Ao que Chico retrucou: mas então preciso achar outra palavra para rimar com branco, para substituir o “soneto” que rima com preto. Tom concedeu.


